O mercado entrou num período decisivo.
Tem gente fingindo que nada mudou.
Tem gente entrando em pânico e consumindo toda ferramenta, tendência e novidade que aparece.
Mas tem um terceiro grupo: o dos profissionais que entenderam que este não é um momento de correr mais rápido.
É um momento de ganhar clareza.
Você sente que 2026 tá sendo muito tiro, porrada e bomba? Dedo naquele lugar e gritaria? Ou será que é sempre assim?
Já falamos como a gente tem essa impressão de que o ano tá caótico todos os anos. Mas, certamente, ano de Copa do Mundo feat. eleição não é um ano qualquer. Ainda mais quando a gente tem tudo isso turbinado pela IA.

Creators estão virando a “TV”
E, surpreendentemente, parece que as redes sociais são mais televisivas que o próprio modelo tradicional da televisão
Até pouco tempo atrás, era impossível fazer sucesso com a sua imagem sem aparecer na televisão. A expressão “15 segundos de fama” explica justamente o fato de que, em poucos segundos com o seu rosto na telinha, já era possível ser reconhecido na rua e ter o gostinho de ser famoso.
E quando digo pouco, é pouquíssimo, tá? O creator hoje tá num limbo entre a sobra dos Millenials e os primeiros Gen Z (para quem nasceu como eu, em 88).
Mesmo já sabendo que eu me formaria em jornalismo, o máximo que tinha na mão era uma câmera Sony, para tirar fotos e gravar vídeos - carinhosamente apelidada nos roles como Cyber Shot, e o Movie Maker, software de edição que já vinha no Windows. Até rolava subir coisas no YouTube, mas a internet era discada ainda, mais lenta que uma carroça. Além disso, eu não tinha pretensão nenhuma, muito menos se falava de algoritmo e audiência naquela época. Por isso, o meu sonho sempre foi atuar em algum veículo de comunicação, mas nunca me passou pela cabeça que iria trabalhar com mídias digitais um dia.
Minha turma foi uma das primeiras que precisou se virar com a nova forma de produzir conteúdo, mesmo sem aprender nada sobre durante as aulas.
As mudanças aconteciam numa velocidade muito maior do que a gente conseguia compreender, quem dirá estudar e aplicar ao mesmo tempo.
Dando um pequeno salto - com grandes transformações na humanidade conectada -, a gente chega nessa configuração de feeds infinitos e creators humanos perdendo engajamento para conteúdos de IA, que estão flodando nossos feeds.
Hoje, muita gente trocou a programação da TV aberta por ver seu creator preferido no YouTube. A televisão, como aparelho, continua no mesmo lugar da casa. Mas a forma de consumo mudou drasticamente - como você já deve acompanhar pelos conteúdos em todos os lugares e telas possíveis.
Em seu livro de 1974, "Television: Technology and Cultural Form" (Televisão: Tecnologia e Forma Cultural), Raymond Williams escreveu que “em todos os sistemas de comunicação anteriores à [televisão], os itens essenciais eram discretos”. Ou seja, um livro é encadernado e finito, existindo em seus próprios termos. Uma peça de teatro é apresentada em um teatro específico em um horário determinado.
Williams argumentou que a televisão transformou a cultura, passando de produtos discretos e delimitados para uma sequência contínua e fluida de imagens e sons, que ele chamou de “fluxo”. Quando digo que “tudo está se transformando em televisão”, o que quero dizer é que formas díspares de mídia e entretenimento estão convergindo para uma coisa: o fluxo contínuo de vídeos episódicos.
Confira um trecho da Newsletter do jornalista Derek Thompson, que explica um pouco desse movimento da televisão na era do digital. Segundo ele, “tudo que ainda não é televisão está se transformando em televisão”.

O YouTube virou a nova TV
Se você acompanha a Creator Economy, já deve ter visto algum corte do podcast "Subway Takes", apresentado por Kareem Rahma, que recentemente se disse frustrado por uma tentativa de levar um novo show pra TV.
Ele fechou com a CNN pra produzir o “Keep The Meter Running”, programa em que Kareem pediria um táxi e daria como destino o lugar preferido do taxista em Nova Iorque. A frustração se deu porque, sete meses de desenvolvimento depois, não havia nem sinal de ficar pronto.
"Eu não quero mais fazer. Saí do acordo e decidi produzir de forma independente pro YouTube", explicou Kareem.
Ele também falou sobre o formato do programa: na TV, características como o tempo de duração de cada episódio precisam ser lineares, enquanto no YouTube ele tem liberdade pra fazer um ep. de 45 minutos e outro de 12, de acordo com o rendimento de cada gravação. O mais legal de tudo o que ele explica sobre a decisão corajosa de rejeitar o amparo e o dinheiro da TV, pra seguir de forma independente, é a preocupação com o público:
"É mais sobre a história e como posso fazer o melhor pela audiência. Eu estava, literalmente, pescando com um coreano na floresta ontem".
Esse movimento significa que ele não vai ter investimento no programa? Depende. Pelo menos a chance de conseguir uma grana ele vai ter: executivos do YouTube convidaram Kareem para um evento que reúne patrocinadores, assim ele pode dar seu pitch sobre o programa para os maiores marketeiros dos EUA.
A Creator Economy ainda está em fase de amadurecimento e muitas marcas ainda patinam quando o assunto é marketing de influência. Aqui no Brasil, é inegável que creators brancos, cis e sudestinos ainda recebem as melhores oportunidades, como a YOUPIX mostra nas edições anuais das pesquisas Creators & Negócios.
Isso quer dizer que o mercado ainda é desigual - e estamos lutando diariamente pra esse cenário mudar. Além disso, apesar de centenas de depoimentos de creators que começaram do zero, com um celular que esquenta e trava do nada, e com uma internet ruim, mas hoje alcançaram o sucesso e vivem da criação de conteúdo, ainda é difícil simplesmente se jogar na carreira de creator.
No entanto, ao mesmo tempo que a gente ainda tem muito trabalho pela frente, a Creator Economy oferece uma plataforma democrática pra produção de conteúdo como a gente nunca viu. Se você tiver estratégia, uma boa ideia ou simplesmente a sorte de estar na hora e lugares certos, você pode viralizar e construir uma carreira como creator.
E, quando você ganha um pouquinho de dinheiro e investe na criação de conteúdo, o retorno vai acontecer - se a ideia for boa e, você, um creator autêntico. É o caso do Raheem, que chegou no ponto de poder dizer “não” pra uma TV, porque consegue construir sua audiência sem a máquina da TV por trás.
Não com o mesmo alcance, talvez.
Mas exatamente do seu jeito.
Você faria o mesmo?
(Texto inspirado na News #58 da YOUPIX. Para aprofundar, corre pro @instayoupix e receba, em primeira mão, o olhar de todo o time YPX :)