Cada view importa

Um assunto sério, mais do que imagina.

Nesta domingo finalmente acaba a Copa do Mundo. Muitas lições pra tirar desse Mundial, inclusive para a Creator Economy.

Mas, ao invés de um geralzão sobre a Copa, o papo de hoje vai ser sério porque é necessário questionar: o dinheiro gerado pela sua atenção, como usuário de redes sociais, tá indo pro bolso de quem?

Que tipo de gente nós estamos dando o poder da influência?

O dinheiro vai pro bolso de alguém

Parece só uma curtida, alguém que você nem lembra que segue. Mas tá alimentando uma cadeia de grana maior do que parece

Uma reportagem do Fantástico mostrou a denúncia de agressão contra o influenciador de futebol Cartolouco, além de apresentar imagens de uma câmera de segurança que comprovam a agressão. Ainda, a reportagem mostrou outras duas vítimas que se relacionaram com ele anteriormente. Que essa história é repugnante, com certeza concordamos.

Mas a gente precisa discutir também o que aconteceu no dia seguinte ao escândalo, que não foi um cancelamento, ou a debandada em massa do público do Cartolouco: além do número de seguidores dele no Instagram (1.1 milhão) permanecer intacto, a plataforma ainda deixou no ar um vídeo publicado pelo influenciador, em que ele afirma que a reportagem foi mentirosa.

Até esse momento, as mais de 62 mil pessoas que curtiram o vídeo podem ter acreditado que a história inteira é mentira da Globo.

Acontece que, no textão de hoje, a gente não pode tratar este caso como "apenas mais uma polêmica de internet". Afinal, estamos testemunhando a materialização do lado mais perverso do poder da influência - e que não é de hoje.

O pacto da misoginia

Quando uma onda de indignação acontece, milhares de pessoas iniciariam mutirões para deixar de seguir o agressor. A lógica nos diria que o gráfico de seguidores despencaria, certo? Bom, sabemos que na prática não funciona assim.

Pra ficar no mundinho do futebol, o ex-jogador Daniel Alves, condenado a 4 anos e meio de prisão na Espanha por abuso sexual, teve sua condenação revogada por unanimidade, hoje atua como pregador em uma igreja evangélica pentecostal e acumula mais de 34 milhões de seguidores no Instagram.

Para cada pessoa consciente que deixa de seguir um agressor de mulheres, um novo usuário — provavelmente homens que se identificam, silenciam ou apoiam ativamente esse tipo de comportamento — passam a seguir. Isso acontece porque homens se protegem e criam redes de apoio mútuo, mesmo diante da violência mais explícita contra a mulher. Pediu perdão, tá perdoado. Segue o baile.

E aí, pra quem tá no Instagram desde que ele era só uma rede social pra postar foto de comida com efeito barato, esse papo sobre a importância do "seguir" pode ser mal interpretada como um grande ato político de cumplicidade - mas a verdade é que é. Ao darem palco e audiência a um agressor, esses novos seguidores (bem como os que não deixam de seguir) não estão apenas consumindo conteúdo de futebol; estão legitimando a violência e dizendo: "estamos com você".

Para dar um exemplo na prática no contexto da Creator Economy brasileira, a gente fala incansavelmente sobre como muitas marcas ainda olham só pro número de seguidores na hora de contratar um creator, influenciador, ou celebridade. Pode parecer que você deixar ou não de seguir alguém não vai mudar nada pra quem acumula milhões de seguidores nas redes, mas é justamente o coletivo é que faz a força, negativa ou positiva.

O mercado periférico das Bets

No passado, o cancelamento de marcas tradicionais era o fim de uma carreira. Se a grande indústria de cosméticos, automóveis ou bebidas retirava o patrocínio, o creator perdia sua sustentabilidade financeira. Hoje, esse cenário mudou com a ascensão de um sistema publicitário "periférico", que rapidamente se tornou uma das fatias mais robustas da Creator Economy: as casas de apostas.

Influenciadores como o Cartolouco já fazem publicidade para essas plataformas. E a verdade é que muitas bets operam sob outra lógica ética e não se importam com o brand safety tradicional. Elas querem polêmica, engajamento e, acima de tudo, homens jovens e vulneráveis em suas bases de dados. Esse mercado paralelo e pouco regularizado - por isso descrito como periférico, oferece patrocínios que superam em dez vezes o orçamento das marcas tradicionais de consumo.

A audiência garantida pelos novos seguidores e pela base que não se importa em continuar ali é o combustível que as casas de apostas precisam para continuar depositando milhões de reais na conta de quem deveria responder  judicialmente por seus atos - e aqui a gente não fala sobre um influenciador específico, mas sobre dezenas ou centenas de homens que de alguma forma agrediram mulheres e seguiram na mídia, às vezes com mais engajamento do que antes.

Como fica a sua casa

Por aqui, nós falamos sempre que “criar conteúdo nas redes sociais é como construir uma casa, mas em um terreno alugado”.

Isso porque, se as plataformas saem do ar ou te tiram do ar arbitrariamente, a maioria esmagadora da audiência que você construiu vai pro ralo. Já houveram restrições, suspensões ou a desmonetização de creators e influenciadores que se posicionaram sobre política, denunciaram violações de direitos humanos, debateram racismo ou defenderam pautas de minorias. Nem precisa ir tão longe: experimente postar um mamilo (feminino, óbvio) nas redes, mesmo que seja uma ilustração, pra ver se você não toma uma censurazinha.

O que explica a permissividade quando se trata de agressores de mulheres, condenados ou investigados? A resposta pode estar no engajamento que a sua indignação gera.

Seu like vale “1 real”

Nós precisamos ter responsabilidade individual enquanto usuários das redes sociais. Muitas vezes, tratamos o ato de seguir alguém como um gesto inofensivo, mas você tá enchendo o bolso de alguém com a sua atenção, ainda que não esteja vendo pra onde o dinheiro vai.

Cada view que você dá em um story, cada clique para ver uma polêmica, cada like preguiçoso e, principalmente, cada decisão de manter o seu follow representa uma moedinha de dinheiro real que você deposita no bolso daquela pessoa ou, no mínimo, da plataforma. Multiplique a sua "moedinha" de atenção por milhões de outros usuários e você terá o financiamento direto de impérios digitais nocivos.

Se queremos uma Creator Economy saudável, justa e segura, precisamos começar a policiar a nossa própria “carteira de atenção”. Parar de seguir agressores de mulheres não é apenas um posicionamento moral, mas pega no bolso de quem usa a influência como escudo pra impunidade.

(Texto inspirado na News #64 da YOUPIX. Para aprofundar, corre pro @instayoupix e receba em primeira mão, o olhar de todo o time YPX :)

Leonardo Coletti

Leonardo Coletti

Jornalista, DJ e Creator.
Brazil