Atenção para a conexão

Oh céus... Aleluia, oremos.

Finalmente o BBB voltou a pegar fogo.

"Ai, que delícia o verão
A gente mostra o ombrin,

a gente brinca no chão, ah-ha-ha"

Afinal, se alienar um pouquinho às vezes faz bem também. Brincadeira a parte, goste você ou não do formato, ele é um prato cheio pra gente falar sobre Creator Economy.

Além de todos os cases publicitários, que às vezes ficam na memória da audiência por anos, a gente observa como a descentralização do consumo de mídia foi transformando o programa ao longo do tempo.

Talvez o grande lance de hoje seja que as pessoas entram no BBB já sendo famosas, ou querendo ser influencers. Mas será que essa virada de "carreira" é garantida? Vamos falar hoje um pouco sobre isso.... bora nessa!!!

Como o BBB se tornou um tipo de “faculdade dos influencers”

Programa virou trampolim fácil para ganhar seguidores, e até quem fica de fora da casa se aproveita da exposição

O que você faria com 1 milhão de reais?

Essa é a pergunta que eu cresci ouvindo e me imaginava comprando uma casona, um carro bacana… até que chegamos no ponto em que esse valor não “resolve a vida”. Você não pode simplesmente se dar ao luxo de parar de trabalhar, ou vai se contentar a viver com pouco.  

Vários programas na história da televisão brasileira já ofereceram esse prêmio que muda a vida (não resolve, mas muda a vida de qualquer um): o Show do Milhão testa seus conhecimentos gerais em uma provinha pro Brasil inteiro ver.

Mas às vezes o Silvio Santos distribuía dinheiro de graça, caso você não seja muito bom com as perguntas e respostas. O BBB oferecia a mesma coisa, pra você ficar confinado 3 meses numa casa.

E aí os participantes passavam pelo programa. Experimentavam a vida de exposição por um tempo, mas quem não levava o prêmio voltava pra programação normal como CLT, ou virava promoter de balada pra aproveitar o hype. Entenda que, com pouquíssimas exceções em duas décadas de programa, só quem levava o milhão pra casa se dava minimamente bem.

Só que aí vieram as redes sociais e, de uma plataforma pra postar comida em filtro de qualidade duvidosa, o Instagram virou uma baita vitrine e outras plataformas surgiram com a mesma pegada. Mesmo sem querer, algumas pessoas iam acumulando seguidores pelo caminho. Até chegarmos no ponto em que a gente mal consegue ter certeza se uma informação jogada na casa é real, ou se ela tá servindo pra promover alguma outra coisa do lado de fora.

Com 22 participantes, com idades entre 21 e 68 anos, formações e profissões variadas, o reality show continua movimentando centenas de milhões em receitas publicitárias e é um fenômeno de audiência. Além da notoriedade, o vencedor (ou vencedora) do BBB 26 terá direito a um prêmio de R$ 5,44 milhões.

O textão de hoje fala sobre como o perfil dos participantes mudou ao longo das edições do programa. Mônica Vieira, professora do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP, afirmou em entrevista ao Nexo que o sucesso inicial do BBB envolvia a centralidade que a televisão tinha para o entretenimento e informação, o que foi se perdendo com a popularização da internet:

“Quando a gente está falando do Big Brother, estamos falando de um programa cujos personagens, inicialmente, eram pessoas comuns e pessoas reais. E o que a audiência busca nisso? Identificação. Ela também quer entretenimento, mas está relacionado com as convicções.”

Pré-história (2002 a 2010)
Essa foi a época de passar pelo programa. Algumas pessoas aproveitaram a grana pra subir um degrau na vida, pagar dívidas, investir e garantir um futuro com menos preocupação.

Outras perderam tudo… e outras cumpriram seu propósito, como é o caso da Mara, que venceu o BBB 6 e usou parte do prêmio pro tratamento de sua filha, Araci, que foi diagnosticada com síndrome de Little (uma doença genética rara que causa hipertensão arterial).

E teve gente que estava “na hora certa e no lugar certo”, ou aproveitou a projeção, como é o caso das atrizes Grazi Massafera e Juliana Alves, as apresentadoras Sabrina Sato, Fernanda Keulla e Ana Clara.

Além de Fernando Fernandes, e o político e escritor Jean Willys, o primeiro a se assumir homossexual dentro da casa.

A CNN relembrou por alto o que cada campeão fez com o prêmio, caso você esteja com curiosidade.

Normalização do BBB (2011 a 2019)
Depois de uma década como sucesso absoluto de audiência, o BBB deu uma estagnada, fato que coincide com a descentralização do nosso consumo.

O streaming e o conteúdo on demand foram tomando cada vez mais espaço, principalmente entre os jovens, que formavam boa parcela da audiência da Globo durante a transmissão do programa.

Mesmo com os esforços pra recuperar o Ibope, nenhuma edição da década ultrapassou os 30 pontos de audiência de média. O BBB 19 teve o pior desempenho: 20,3 pontos na grande São Paulo.

Quando Pedro Bial deixou a apresentação do programa pra dar lugar a Tiago Leifert, que assumiu na edição 17, a expectativa era de uma repaginada no formato, que já não gerava mais audiência como antigamente.

O celular, as redes sociais, o YouTube e o streaming se consolidaram, “roubaram” a atenção das pessoas, e então o BBB perdeu seu lugar.

Para a edição de 2020, a Globo investiu num formato que tava todo mundo com saudade de testar: uma parada meio Casa dos Artistas.

A ideia era simples, trazer celebridades, os chamados “camarotes”, juntamente com anônimos no programa.

O auge: BBB 20 e a revolução da Manu
Aqui é onde absolutamente tudo muda, uma galera que tinha abandonado o programa na última década, de repente tava com tempo de sobra preso em casa.

E o pay-per-view, que era algo tão distante antigamente, de repente ficou mega acessível pelo streaming da emissora. Entre uma reunião e outra no home office… uma espiadinha. E mandava no grupo de zap.

E as páginas no Twitter e no Instagram comentando com cortes, trazendo contexto, realmente movimentando o 'burburinho'.

A conversa voltou mais forte do que nunca.

Em meio à pandemia de covid-19, a final do BBB teve a maior audiência em dez anos, com 34 pontos em São Paulo, superado em 0,1 pela final do ano seguinte.

A Globo certamente esperava um pump na audiência ao trazer os camarotes. Mas duvido que imaginavam uma pandemia global que, se foi horrível em termos humanitários, caiu como uma luva para os negócios da emissora (o capitalismo é assim, mores).

Mas uma participante específica jogou tudo pro ar: Manu Gavassi, que já era cantora e atriz, além de uma pessoa extremamente criativa - bolou inúmeros vídeos em que comentava situações que poderiam acontecer dentro da casa: intrigas, amizades, paredões, vitória em alguma prova e por aí vai. Ela chegou a combinar as roupas que usaria em cada dia ao longo do programa, que eram os mesmos looks que ela usou pra gravar os vídeos. Gênia.

Some essa bela sacada a uma pessoa que já era muito famosa antes de entrar no programa e você chega no caminhão de engajamento que ela recebia a cada paredão que participava, incluindo a final.

Ela deu check em tudo o que precisa pra tirar uma ideia genial do papel e ter sucesso, incluindo o “privilégio” de saber de antemão que iria participar do programa e se preparar muito bem pra fazer história.

Daí pra frente, muitos participantes tentaram repetir a estratégia de ouro, mas falharam miseravelmente. Nada contra, mas não adianta você simplesmente pegar uma ideia genial e tentar copiar, porque essa não é a parada.

Se não vem de dentro, se não tem autenticidade… você até replicou o formato, mas não atingiu a audiência de verdade.

E aí gastam uma grana pra fazer esses vídeos produzidos, fica todo mundo comunicando meio igual e matam as possibilidades de terem ideias mais criativas e alinhadas com a própria essência.

Receita do que não fazer no BBB. Jamais.

E o que fazer depois do programa?

Algumas figuras como Juliette e Gil do Vigor conquistaram tanto a audiência que mudaram realmente de vida, ao ponto de se tornarem celebridades famosíssimas por onde passam.

Outras, incluindo a própria Juliette - apostaram em uma carreira musical, por exemplo, que não é essa coisa de “vou virar influencer”, mas sim, vou fazer uma parada que sempre tive vontade aproveitando a minha projeção de agora. Não deixar a peteca cair. A jornalista Carol Prado listou algumas dessas pessoas.

Mas alguns casos chamam atenção, como a bola levantada pela historiadora Gio Heliodoro, comentando sobre a declaração da ex do participante do BBB 26, Pedro, que foi traída por ele e, de tanto ele contar essa história no programa, ela ganhou projeção e acumula mais de 800 mil seguidores. Do mais absoluto nada. Virou o ano ela era só uma pessoa comum, com um Instagram normal. Agora resolveu que vai ser influencer.

Gio explica que “a pessoa não se torna conhecida pelo que ela construiu, mas apenas pelo que viveu”. Ela também fala que as pessoas que viralizam não tem culpa da audiência repentina, caso da Jennifer do avião, que determinado momento, chegou a ter mais seguidores que a Fernanda Torres.

A gente passou a transformar acontecimentos em identidade pública.

Em 2025 estávamos a um passo a frente do papo de hoje, falando como muitos desses “ídolos repentinos” caem no cancelamento virtual, por não continuarem correspondendo às expectativas do público - ainda que jamais tenham pedido para terem sido colocadas nesse lugar.

Já reparou que a internet está repleta de especialistas em criar ídolos e destruí-los logo depois?

Jimmy aponta que o ódio por figuras como a Jennifer (sim, a do avião) não surge assim que o sucesso bate, mas sim, quando "esse sucesso não cabe mais dentro da nossa narrativa".

Na época da TV, cada um tinha seus 15 segundos de fama e pronto, pra falar com a pessoa, só encontrando com ela na rua. Hoje, é só achar o @ e mandar o que você quiser, de uma mensagem fofa ao puro discurso de ódio, em uma rápida DM.

Qual seria o sentido de transformar pessoas em personagens descartáveis, e depois que eles desaparecem fingir se importar?

Por isso é meio complicado tratar o reality como uma “faculdade de influencer”, apesar de muita gente entrar lá com essa cabeça - isso sem falar em quem não consegue entrar, mas faz de tudo pra conseguir, incluindo comprar uma mentoria sobre como entrar no programa com o campeão 'Maximize-se/Minimize-se'.

"É só entrar lá que eu vou ser influenciador"... eu conto ou vocês contam? A gente fala tanto que influência não é causa, mas consequência do que você constrói junto a sua audiência.

O BBB 26 voltou com um pouquinho mais de hype, depois de uma edição flopadíssima no ano passado, na qual ninguém se destacou - no BBB 24, pelo menos o campeão Davi Brito nadou de braçada.

Alguns participantes insistiram em replicar a fórmula da Manu, mas não foram tão toscos, justamente por trazerem o mínimo de autenticidade. Pode copiar, só não faz igual. Usa o formato, mas adapta ele pra você.

Difícil saber o quanto de futuro o programa ainda tem pela frente. Vai trazer gente ainda mais famosa? Vai sobreviver a outra troca na apresentação (ou comando)? Vai parar de fazer essas provas chatinhas que mais dão raiva da publi do que convertem? Vamos ver. Enquanto isso… bora dar uma espiadinha?

(Texto inspirado na News #41 da YOUPIX, para mergulhar de cabeça nos assuntos, corre pro @instayoupix e receba, o olhar do time YPX :)

Leonardo Coletti

Leonardo Coletti

Jornalista, DJ e Creator.
Brazil