Passamos por mais um 8 de março sem ter tanta coisa assim pra comemorar. Os índices de violência contra a mulher nunca foram tão preocupantes e, se tem cada vez mais gente somando no enfrentamento ao machismo, também tem muito menino se perdendo cedo - infelizmente, a internet muitas vezes amplifica os discursos de ódio.
Mas a gente tem um mercado com um potencial gigantesco de promover, de verdade, uma equidade de gênero. Tendo, inclusive, a liderança absoluta de mulheres em vários segmentos diferentes.
O nosso objetivo de hoje é tentar jogar um pouquinho de luz em como as mulheres podem crescer juntas na Creator Economy.

Prossifionais mulheres são maioria na Creator Economy, mas homens ainda ganham mais
Nosso mercado tem potencial para ser líder na igualdade salarial. Basta querer
No mês de março celebramos o dia das mulheres. Há mais ou menos uns dez anos, quando já mencionamos anteriormente que comportamentos mudaram muito, impulsionados pelo jeito de interagir na internet, o dia 8 deixou de ser apenas um motivo pra dar flores. Finalmente entendemos que a data é política e serve para reafirmar e reivindicar direitos que deveriam ser básicos.
Muitas ações desastrosas foram registradas na história do 8 de março, a exemplo de uma bola fora tremenda do McDonald’s que, em 2018, selecionou 20 lojas pelo Brasil pra operar no Dia da Mulher apenas com mulheres trabalhando. Na década passada parece que todo mundo foi acordando e, quem despertou tarde, tomou tombos feios. O que era visto (pelos homens) como uma data fofa, de carinho às mulheres, rapidamente foi percebido como um marco político.
E, apesar da intenção do textão de hoje ser mostrar como o nosso mercado pode impulsionar a igualdade de gênero em várias frentes, a gente não pode fechar os olhos pro que acontece nas telas e fora delas: processos de feminicídio triplicaram nos últimos cinco anos - e 2026 começou com péssimos índices de violência contra a mulher.
No momento em que a proteção à vida das mulheres finalmente virou pauta central do debate público, a Creator Economy precisa colocar seu potencial de promoção da igualdade pra jogo. Durante décadas, grande parte dos mercados criativos — publicidade (principalmente), televisão, jornalismo, entretenimento — foi organizada por hierarquias onde homens ocupavam a maioria esmagadora dos cargos de decisão. Nosso mercado tem a desconfortável missão de embaralhar um pouco esse jogo.
Porque, na Creator Economy, o principal ativo não é o cargo a ser mantido em uma empresa, o que perpetua uma hierarquia de opressão. É a audiência que manda. E a audiência tá cansada de ver homens mandando em tudo.
Lembra que falamos sobre os players precisarem crescer juntos na Creator Economy, porque não tem como crescer só um lado desse bolo? Precisa ser uniforme. Quando mulheres - que são maioria entre os criadores de conteúdo em mídias digitais, já chegaremos nesse dado - constroem suas próprias audiências, elas passam a ter algo que historicamente lhes foi negado: autonomia de narrativa e de renda. Elas não dependem de um editor pra falar sobre determinados temas, de um diretor pra conseguir uma oportunidade ou de um chefe pra apontar quais histórias merecem ser contadas. Elas próprias definem a pauta, a estratégia e o posicionamento. Essa autonomia virou também uma forma de poder.
Um exemplo prático do esquema cooperativista da Creator Economy (brincadeira, mas é sério, vem comigo): compartilhamentos, comentários, menções, vídeos em collab, recomendações de outros perfis. Quando mulheres usam esses mecanismos para amplificar outras mulheres, o impacto deixa de ser individual e passa a ser coletivo - sobretudo nesse mercado. Uma creator maior pode abrir espaço para uma menor, seja na frente das câmeras ou nos bastidores.
O crescimento deixa de ser só competitivo e passa a ter uma dimensão de comunidade. Isso também começa a mudar a lógica das marcas: empresas perceberam que trabalhar com creators mulheres não é apenas uma questão de “representatividade simbólica” - aquele clássico que pessoas negras enfrentam em novembro e, as LGBTs, em junho. Existe agora uma busca por credibilidade real, por gerar identificação com a audiência e se aproximar do público. As creators estão deixando a skin de ‘rostinho bonito’, como era na publicidade tradicional, pra participar cada vez mais da construção da narrativa e da estratégia.
Existe equidade de salário?
Segundo a pesquisa Creators & Negócios 2025, o número de creators mulheres é de 74,9% no Brasil. Ainda assim, quando o assunto é renda mensal acima dos R$ 20 mil, homens ganham mais e têm mais autonomia.
Por estarem mais presentes nesse ecossistema, é natural que as mulheres apareçam mais nas faixas de renda menores, mas quando o assunto é ganhar dinheiro pra valer, os homens saem, de novo, na frente.
No recorte apenas entre as mulheres, o racismo também aparece: 74% das creators que não têm renda alguma, ou ganham no máximo R$ 2 mil, são negras. Por isso a importância de combatermos todo o tipo de preconceito em todas as frentes, ao invés de selecionar pautas. Ainda mais no nosso mercado, que todo mundo precisa crescer junto.
O perfil das creators, da pandemia pra cá, tem mudado e reflete agora poder, em um movimento alinhado com a necessidade dos creators enxergarem seus projetos de conteúdo como negócios, ao invés de meros hobbies.
Issaaf Karhawi, jornalista, mestre e doutora em ciências da comunicação pela USP e autora do livro “De blogueira a influenciadora”, aponta que o mercado dos influenciadores que existe hoje é fruto das blogueiras de moda dos anos 2000 e 2010, que foram pioneiras na produção de conteúdo digital no país.
Por outro lado, a Issaaf também reflete sobre os estigmas que rodeiam o lugar da influenciadora, e como, por muito tempo, as blogueiras foram vistas como fúteis por falarem sobre moda e beleza.
“A expressão ‘influenciador’ carrega muitos estigmas. Quando pensamos em influenciador, a imagem que vem é de alguém que apenas quer aparecer na internet, entre muitas aspas. Isso reforça a ideia de frivolidade, futilidade e superficialidade, como se estivéssemos entrando em um espaço estigmatizado do feminino”, analisa em uma reportagem do Meio & Mensagem.
Como são maioria dentro do nosso mercado, são as mulheres que lideram a força das comunidades e, de fato, influenciam comportamentos - e as empresárias brasileiras estão largando na frente do resto do mundo, embaladas pelo nosso "molho".
Se, por um lado vivemos tempos tenebrosos para a segurança das mulheres, que muito tem a ver com o aumento no número de denúncias de violência, e no enfrentamento, por outro, temos na Creator Economy a possibilidade de buscar não só a equidade de gênero, mas a liderança das mulheres no geral.
A Creator Economy não resolve sozinha problemas estruturais como violência de gênero ou desigualdade no mercado de trabalho. Mas ela cria algo único que historicamente sempre fez diferença em processos de transformação social: mulheres com voz, comunidades relevantes e com liberdade para serem autênticas.
Enquanto a gente vê pelo feed vídeos de homens que não sabem nomear uma mulher importante além da mãe, irmã, esposa ou filha, a Creator Economy tá sendo construída, todos os dias, por mulheres extraordinárias.

Terra de Ninguém
Nas Olimpíadas de Inverno, viralizou uma foto do atleta de hóquei Jack Hughes, que fechou o jogo que deu o ouro aos Estados Unidos. Na imagem, ele aparece com um dente quebrado, a boca meio ensanguentada e mordendo a medalha de ouro. Maneiríssimo. O problema é que essa imagem não é real.
A fotografa Elsa Garrison registrou o atleta que, de fato, tinha quebrado um dente durante a partida, mas comemorava com a bandeira de seu país e o punha erguido.
Um cara chamado Jeff Cole, que se define como 'Artista Digital' em sua bio no Instagram, pegou a foto original, jogou numa inteligência artificial, fez uns ajustes e soltou a foto modificada, sem nenhum tipo de crédito à fotógrafa. O ladrãozinho digital sequer sinalizou que a imagem - que poderia super ser real - era um conteúdo de IA.
A imagem teve mais de 400 mil curtidas no Instagram e, desde que a fotógrafa Andrea Trega publicou um vídeo denunciando o roubo, a postagem recebeu mais de mil comentários denunciando Cole.
Ele se defendeu nos comentários, dizendo que sua peça é "arte conceitual digital assistida por IA e misturada com Photoshop", mas então porque ele não se importou de anunciar esse rótulo frufru desde o início?
Esse caso levanta o debate sobre plágio e roubo de propriedade intelectual na internet que, sim, tem regras, mas ainda permite que engraçadinhos desse tipo saiam impunes - e ainda monetizem em cima de um roubo.
"A tecnologia é só o meio. Quem odeia, persegue e viola são pessoas. Mais especificamente, homens."
A jornalista Camila Brandalise, do UOL, questiona o porquê as plataformas não se preocupam em como proteger as mulheres, ao invés de ficarem perdidas sobre como agir em casos como o do Grok (IA do X) estar sendo usado pra criar imagem de mulheres seminuas - sem o consentimento delas.
A Creator Economy é construída todos os dias por mulheres incríveis. Celebramos algumas delas, mas sabemos que tem muitas outras arrasando por aí também. Marca nesse post as mulheres do nosso mercado que você admira. A gente quer conhecer todas. 💜
(Texto inspirado na News #47 da YOUPIX. Para mergulhar e se aprofundar nos assuntos, corre pro @instayoupix e receba, em primeira mão, o olhar de todo o time YPX :)