A descoberta da ignorância

Somos os melhores.

Agora todo mundo fica de orelha em pé quando o assunto é Brasil, até quando, aparentemente, nada aconteceu: a reação do ator Oscar Isaac à vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro fez uma galera questionar se ele ficou positivamente surpreso, ou se achou que o brasileiro não merecia o prêmio. Dessa vez vamos fazer vista grossa, circulando pessoal.

Goste ou não, o cinema nacional chegou no topo pra se manter assim. E toda essa carga tem uma razão: nós [insira aqui qualquer nacionalidade que não seja os EUA ou algum país da Europa] sempre fomos desprezados e a nossa cultura nunca foi vista com qualidade.

Claro que a gente melhorou muito de décadas pra cá, mas o próprio Wagner Moura falou sobre a honra que é ser indicado para essas premiações, mas como é problemático ele ser um dos primeiros latinos indicados e o primeiro brasileiro a vencer o Globo de Ouro, sendo que outros talentos já surgiram na história.

E uma ferida específica ainda vive na nossa memória: no Oscar de 1999, outro filme de Walter Salles, Central do Brasil, havia sido indicado para melhor filme estrangeiro - e tudo bem, perdemos, mas o páreo foi duríssimo. Quem levou foi “A Vida é Bela”, um filme realmente incrível.

A treta rolou mesmo na categoria de Melhor Atriz, que a Fernanda Montenegro merecia - com todo respeito às concorrentes de peso como Cate Blanchett e Meryl Streep, mas foi preterida pela então novinha Gwyneth Paltrow pelo filme “Shakespeare in Love”, que tem a modesta avaliação de 3.3 no Letterboxd.

Além da questão de ter sido escanteada por ser uma atriz brasileira num filme em português, que a gente mal sabe se os votantes da Academia viram na época (hoje é mais que obrigação), tem o fato histórico, enquanto homens são premiados por serem maduros, geralmente depois dos 35, as mulheres só ganham quando são novas, dos 26 pra baixo, como a creator Jojoca apontou em um levantamento.

O saldo final é de que essa edição do Globo de Ouro de 2026 registrou o maior engajamento da história, batendo o recorde do ano passado.

Por que será, né?

Vem aí outra onda da “brazilian storm”?

Em 2011, a imprensa estadunidense lançou o termo pra falar sobre a nova geração de surfistas brasileiros que passou a se destacar no cenário mundial.

A alcunha pegou de vez em 2014, quando pela primeira vez na história, um brasileiro ganhou o Campeonato Mundial de Surf, com Gabriel Medina.

Pra você ter uma ideia, do início do Mundial em 1964, até 2013, a gente nunca tinha trazido um caneco pra casa. Desde o primeiro título do Gabriel, a gente ganhou 8 dos 11 disputados. Isso mostra que, quando uma geração surge em qualquer segmento, ela chega pra ficar.

Dessa vez, parece que a bola da vez é no cinema, e as redes sociais ficaram lotadas de memes dizendo para pais e mães tirarem as crianças do futebol e as colocarem no teatro! Isso em ano de Copa do Mundo também, tá?

A impressão que dá, sendo brasileiro, é de que a gente fica “mal acostumado”, no melhor dos sentidos, quando ganhamos relevância em alguma coisa. A gente sabe do nosso potencial, então quando chegamos lá, a gente espera não sair do topo. E não tinha área melhor pra gente se destacar nesse momento do que a cultura, em ascensão no país nos últimos anos, depois de termos visto o Ministério da Cultura derreter no último governo.

Protagonista do momento, o ator baiano, que inclusive é alvo recorrente de embates políticos nas redes pelas pautas que defende, como no caso do PL do Streaming, para regulamentar os serviços de vídeo sob demanda e prevê a cobrança de um tributo sobre o faturamento das empresas que, no Brasil, têm o 2º maior mercado do mundo.

O projeto de lei deve ser votado em fevereiro e, com mais uma cerimônia de Oscar promissora pra gente, a pauta deve ganhar cada vez mais espaço no noticiário e nos feeds.

Foto: Michael Buckner/2026.

Ainda estamos aqui, torcendo

É difícil marcar o momento exato em que a “brazilian storm” cultural começou, até porque ela não surge de um evento específico, mas sim de uma série de fatores, como os memes brasileiros, que são os melhores do mundo (chora geração 9gag).

Prova dessa fama toda é o Tiny Desk, renomado formato de shows intimistas da NPR, que resolveu lançar a sua versão tupiniquim em outubro de 2025, com foco na música nacional. Projeto esse em parceria com o YouTube, uma curadoria que equilibra artistas consagrados e novos talentos. Além disso, todas as apresentações ocorrem no escritório do Google em São Paulo. Sem contar com o apoio de grandes parceiros e anunciantes, como do Banco BTG Pactual.

Atletas brasileiros como jogadores de futebol são conhecidos pelo lifestyle fora de campo tanto quanto pelos resultados esportivos; e, é claro, por termos atores e músicos cada vez mais presentes no cenário mundial, como é o caso da Anitta, que construiu uma baita carreira internacional e do próprio Wagner Moura, que foi indicado pela primeira vez no Globo de Ouro há 10 anos, por interpretar Pablo Escobar na série “Narcos”.

Aliás, cada vez que o mundo subestima o poder da audiência brasileira, o tombo é gigantesco. Foi o caso de toda a campanha em torno do filme Emilia Pérez, que foi lançado como o queridinho em várias premiações - o que deixou a gente bem enciumado, já que, dessa vez, a gente tinha um filmaço na mão.

Depois que o musical venceu o prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa, comentários como "Sabotaram o prêmio do país errado", "Nunca serão os melhores do ano do Faustão" e "2025 e continuam roubando o nosso ouro", foram só alguns que pipocaram nas redes e perduraram até a cerimônia do Oscar.

Mas o que é nosso tava guardado: Fernanda Torres levou o prêmio de Melhor Atriz num páreo duríssimo com Angelina Jolie, Kate Winslet, Tilda Swinton, Pamela Anderson e Nicole Kidman. A postagem oficial do Globo de Ouro soma quase 3 milhões de curtidas, num movimento inédito para a premiação, assim como um post da Academia ainda no final de 2024, meses antes da premiação, que tá nessa faixa de curtidas e de quebra registrou mais de 842 mil comentários.

O brasileiro não brinca em serviço. Entre o Golden Globes e o Oscar, deu tempo de ver a protagonista de Emilia Pérez, Karla Gascón, se afundar ao criticar a pressão dos brasileiros.

Gascón reclamou em uma entrevista que a equipe de redes sociais que trabalha com Fernanda Torres, indicada ao Oscar de melhor atriz por 'Ainda Estou Aqui', estava "detonando a mim e Emilia Pérez". Ainda assim, isso foi uma "tempestade em um copo d'água" em comparação com a enxurrada de postagens antigas do X que foram resgatadas pela jornalista Sarah Hagi e, posteriormente, publicadas na revista Variety.

Publicadas durante 2020 e 2021, as postagens incluíam vários comentários ofensivos sobre George Floyd, chineses, mulheres muçulmanas e o Islã em geral, para citar apenas alguns dos alvos de Gascón. Como se não bastasse, havia uma postagem no X atacando o próprio Oscar.

América Latina: a cereja do bolo
2026 começou com os dois pés na porta pra quem é latinoamericano, porque a gente mal tinha se curado da ressaca do Reveillón, e já tomamos aquele susto com a notícia de que o lunático Trump tinha ordenado uma invasão à Venezuela pra capturar o presidente Maduro.

A questão aqui, definitivamente, não é apoiar ou fazer oposição ao governo venezuelano, mas sim entender que um país vizinho teve sua soberania atacada - e a gente pode estar no radar também. Por que não?

Essa invasão parece ter sido a cereja do bolo que faltava pra uma união da parte sul do nosso continente, que já vinha numa boa onda.

O cantor porto-riquenho Bad Bunny, que esteve no Top-5 artistas mais ouvidos no Spotify EUA, anunciou uma turnê pra esse ano que não incluiu o país na lista - uma clara cutucada à cultura estadunidense de se achar o centro do mundo, e até outros músicos com turnês que não passam por aqui ou pelo continente africano, por exemplo.

Quando ele lançou o álbum “Debí Tirar Más Fotos”, que traz na capa duas cadeiras de plástico lado a lado, em frente a uma bananeira, até quem não curtia a música do cara passou a entender como a cultura latina tem muitas semelhanças, desse nosso jeito de descansar olhando a paisagem do quintal, ou ficando na calçada observando o movimento da rua, as festas de aniversário na garagem.

Pra quem é usuário de Twitter (desculpa, é assim que a gente se trata, nessa plataforma que funciona como a grande pausa pro cigarro na internet), um fenômeno muito doido passou a acontecer: os feeds dos brasileiros foram invadidos - no melhor dos sentidos! - por tweets em espanhol de internautas vizinhos, assim como os nossos passaram a rodar por lá também. Como a gente não via em muito tempo, a cultura latina tá se aproximando.

Só falta a cantora Shakira desbancar as divas pop estadunidenses e ser anunciada para um showzão em Copacabana em maio. O que acha da ideia?

Afinal, se ela fala português, é gente como a gente. Sem questionamentos.

Sem mais, simples assim.

Ponto final. Pronto.

(Texto e referências inspirados na News #40 da YOUPIX. Para se aprofundar nos assuntos, corre pro @instayoupix e receba em primeira mão, o olhar de todo o time da YPX :)

Leonardo Coletti

Leonardo Coletti

Jornalista, DJ e Creator.
Brazil