Orgia do consumo

Musical "Dom Casmurro".

Muita gente brinca que, hoje em dia: "Todo mundo é meio creator"

De fato, é muito doido ver a quantidade de profissionais que se inscrevem em cursos voltados para creators, na intenção de que o Instagram vire uma extensão (ou cartão de visitas) do trabalho que paga os boletos.

Mas também tem gente que voltou para as raizes do que a internet na real se propõe, compartilhando experiências nas redes.

Hoje a gente fica por dentro do caso de uma leitora gringa que, a partir do movimento BookTok, formou uma comunidade de brasileiros - ninguém resiste ao nosso engajamento mesmo...

Uma gringa virou fã de Chocolate com Pimenta e formou uma comunidade brasileiros

É possível tomar as rédeas da internet e propor conteúdo, ao invés de aceitar ser pisoteado por trends iguais

Courtney Novak é uma escritora que se lançou no desafio de "ler o mundo em ordem alfabética". Basicamente, ela seleciona algumas obras de países que começam com a letra da vez no alfabeto. Só que, assim que chegou no B, ela foi hipnotizada pelo molho brasileiro - e esse foi um molho centenário.

Logo na segunda letra do alfabeto, ela escolheu um dos mais clássicos da nossa literatura: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1881).

Ela faz parte do segmento BookTok, em que leitores compartilham o que estão consumindo em vídeos no TikTok. A estadunidense viralizou, ainda em 2024 - a gente já falou dela aqui e sobre esse fenômeno, em algum conteúdo.

Foi maneiro porque, assim como acontece muito, os brasileiros lotaram os comentários nos posts da Courtney pra comentar sobre o livro e indicar outras obras. Ela até descumpriu seu desafio, porque sentiu a necessidade de incluir mais uma obra nossa na lista: Dom Casmurro.

A influência foi tão grande, que ela decidiu aprender português pra poder ter a experiência de ler o livro, em toda a sua riqueza de detalhes linguísticos, no idioma original. Ou seja... parece que não é só a gente que se inspira no que vem de fora.

E aí, em pleno 2026, a gente tá rolando o feed sem compromisso, outro vídeo dela aparece e na hora a lembrança de quem ela era surgiu na mente. Dessa vez, a Courtney decidiu assistir a novela Chocolate com Pimenta.

Corta agora para o mês de março, e ela faz um vídeo divertidíssimo comentando um pouco da trama e disse que é impossível não se apaixonar pelas novelas brasileiras.

Pra quem não lembra a fundo da novela das 6 que marcou toda uma geração em 2003, a Courtney falou do Timóteo, do estilo peculiar da Jezebel, de como Shakespeare deve sentir inveja de não ter escrito algo parecido e até da vaquinha Estrela - pra ela, a sensação do elenco.

A ideia era pegar a novelinha pra treinar o português, porque ela tá empenhada, mas a invasão brasileira foi intensa, tanto que, agora, os seus vídeos são legendados em inglês e português, porque boa parte do seu público deve ser de gente nossa.

Ensaio do musical ‘Dom Casmurro’, em São Paulo

Em vez de esperar pela próxima trend
No SXSW deste ano, a gente ouviu a importância de ser mais propositivo nos conteúdos. Para as marcas, trazer o creator pra dentro da criação de uma campanha é um movimento que foge do básico. Por si só, o resultado deve ser diferente do que apenas mais um formato copiado.

No caso dos creators, propor sua própria linguagem é um caminho mais nebuloso e difícil, mas recompensa bem mais do que olhar na mesa do amiguinho e copiar exatamente o que ele tá fazendo. Aqui um recorte do que aprendemos no festival em Austin:

Boa parte da Creator Economy, hoje, roda no mesmo padrão: encontrar uma trend > criar um gancho pra segurar atenção > postar com consistência > repetir o processo.

Essa é a receita pra agradar o algoritmo, mas e quando todo mundo aprende e o feed vira uma cópia infinita?

"Quando eu abro o Instagram ou Tik Tok, por que parece que tudo é a mesma coisa?"

Questiona Fana Yohannes, Trends Forecaster e ex-Instagram.

A Courtney vai na maré totalmente contrária, porque tá falando de um assunto que seria supostamente chato - um livro de 1800 e bolinha -, mas o jeito que ela conta é muito bacana. E creators são justamente isso: uma ponte que conecta a audiência de um lado e, do outro, um livro, uma história, um conteúdo acadêmico, entretenimento, uma informação, um produto e, principalmente na Creator Economy de hoje, uma marca.

É claro que muitas trends funcionam, e é possível dar o seu toque de criatividade pra um formato que já existe. Os vídeos de familiares apresentando pequenos comércios de um jeito “preguiçoso” é um bom exemplo disso, porque a trend já conquistou a audiência, que vai continuar engajando esse conteúdo por algum tempo. Surfar nessa onda é mais que positivo - deu pra perceber que tudo isso se aplica tanto para a campanha de uma marca, quanto para uma linha narrativa.

Mas o ponto central de hoje é expandir os horizontes pra entender que, mesmo que um conteúdo pareça chato à primeira vista, ou que o assunto já passou (há 23 anos), ainda é super possível propor uma conversa.

Courtney aprende português com 'Avenida Brasil'

Acelere fundo no que acredita
Uma das principais razões pra muitos creators bons não terem furado suas bolhas ainda é a necessidade de olhar pro lado, ao invés de olhar pra dentro.

Pode parecer muito estranho falar de algo que tá dentro de você, que só você costuma consumir na sua roda de amigos, mas essa pode ser justamente a saída pra construir uma comunidade fiel.

A Courtney é uma pessoa realmente apaixonada por leitura e, se até agora você acompanhou os vídeos mais recentes e num tom mais engraçado e leve, sobre a novela, vale também conferir outros conteúdos em que ela realmente se debruça nas leituras e explica a linguagem das obras de maneira densa.

Estamos falando de uma pessoa que decidiu ler obras de um montão de países, ou seja, ela está em contato com diferentes culturas e formas de escrita.

Esse movimento pode não chamar a atenção do mainstream, mas isso também é um fenômeno interessante. Na Creator Economy dos nichos, um creator não precisa mais de 1 milhão de seguidores pra se provar relevante, mas sim de uma audiência fiel. Um conteúdo aprofundado sobre leitura pode afastar uma grande massa de seguidores, mas trazer alguns valiosos que não estão só de passagem pelo seu feed. Isso sem falar no “boca a boca”, porque um seguidor apaixonado pelo seu conteúdo vai certamente te recomendar pra outros apaixonados como ele.

Em resumo, somando o que há de comum nas plataformas, é preciso constância em um ritmo sustentável; encontrar seu nicho, trazendo assuntos de um ângulo específico; e disciplina na hora de interagir com a comunidade e analisar as métricas. Essa é a diferença entre postar e construir carreira.

Uma coisa é fato: conteúdos mais conectados com o que tá dentro de você são, por essência, autênticos. Dá pra dizer que esse ingrediente é a estrutura da ponte com a audiência: quanto mais sincero e original, mais forte será a ligação com quem tá do outro lado da tela.

De forma prática
Em uma entrevista, Haidt traça um paralelo entre os smartphones e a televisão, porque muita gente defende o celular apontando que, na época da TV, a preocupação dos pais era parecida. Mas o psicólogo explica que a TV promovia mais interação, seja porque as crianças viam juntas - diferentes do celular, em que cada uma tem a sua tela - e até a briga pelo controle remoto era mais sociável.

Diferente da TV, que ficava parada, o celular preenche qualquer espaço da vida e isso vai minando cada vez mais nossas interações.

Por outro lado, o crescimento de comunidades de leitura nos últimos anos, algumas incluindo encontros presenciais, com debates sobre determinada língua e a sua literatura.

Você, por exemplo, também faz parte de algum clube do livro? Desligue a TV e fique longe do smartphone.

A vida é feita de momentos.

(Texo inspirado na News #49, para aprofundar os assuntos da Creator Economy, corre pro @instayoupix e receba, em primeira mão, o olhar da Rafa Lotto e de todo o time da YPX :)

Leonardo Coletti

Leonardo Coletti

Jornalista, DJ e Creator.
Brazil