Trago o seu amor

Dificuldades parecidas.

Mais uma semana apocalíptica.

Então, vamos começar por aí.

O que muda quando a IA deixa de ser só uma caixa de texto e começa a pôr a mão no trabalho?

Agora ela pode olhar seus anúncios, consultar o desempenho do Instagram, acessar arquivos do Google Workspace e preparar relatórios.

Falta só reclamar do café da “firma” e marcar uma reunião para discutir a reunião, o e-mail ela já escreveu.

O ponto é que a conversa sobre IA começou a ficar mais profunda. Enquanto uma parte da internet ainda testa qual ferramenta escreve a legenda menos constrangedora, as big techs estão tentando colocar esses sistemas no meio da operação, onde moram tempo, dinheiro e uma quantidade respeitável de tarefas que ninguém sentiria saudade de fazer.

Uma IA para tomar conta de 500 mil restaurantes. De graça.

E essa ideia é maior do que você imagina.

Na quinta-feira (17), durante o iFood Move, o iFood apresentou o Toqan: uma inteligência artificial que analisa vendas, aponta problemas de operação, compara o restaurante com a concorrência e ainda edita imagens de cardápio e cria peças para as redes sociais.

Tudo em formato de conversa, sem precisar abrir nenhuma planilha.

De cara, a ferramenta está disponível de graça para os cerca de 500 mil restaurantes parceiros da plataforma. A promessa é também abrir depois para quem não vende pelo iFood.

O motivo de tanto esforço está num número desconfortável: segundo pesquisa da consultoria Galunion, menos de um em cada cinco restaurantes independentes do Brasil usava IA em 2025. Não por falta de vontade, mas por falta de acesso, tempo e conhecimento técnico para colocar a tecnologia para funcionar.

O Toqan ataca justamente esse ponto. Ele cruza dados que já existem dentro do iFood — pedidos, cancelamentos, avaliações, faturamento — e devolve isso em linguagem natural. O dono do restaurante pergunta "por que meus cancelamentos subiram essa semana?" e recebe uma resposta. Dá para receber os números direto no WhatsApp, sem nem abrir o portal.

Segundo Juliana Yamada, vice-presidente de Novos Negócios do iFood, a tecnologia-base veio da Prosus, controladora do iFood, e foi adaptada por um time brasileiro para o setor de alimentação. A meta é reduzir a distância entre quem já usa IA avançada no negócio e quem nunca chegou nem perto disso: "com um nível menor de proficiência em IA, você consegue chegar num resultado tão bom quanto", disse ela ao Canaltech.

Aqui está o que interessa para quem trabalha com internet, e não só para quem entrega comida: o iFood não lançou um recurso a mais dentro do app. Lançou uma camada de inteligência de negócio embutida numa plataforma que a maioria dos pequenos empreendedores já usa todo dia. Em vez de vender IA como produto separado, a empresa colocou a ferramenta dentro do fluxo de trabalho.

É a mesma lógica que vem aparecendo em outras big techs: a IA passa a ser um recurso a mais dentro de algo que a pessoa já usa. Quem tem a base de usuários não precisa convencer ninguém a adotar a IA. Só precisa entregar ela no lugar certo, na hora certa.

Para o pequeno empreendedor, o Toqan tira a desculpa de que IA é coisa para empresas grandes, com equipe de dados e orçamento de tecnologia. Para quem vende serviço de análise, gestão ou marketing para esse público, o recado é o oposto: quem cobra por trabalho que uma IA gratuita já resolve vai precisar justificar isso melhor.

O iFood não é o primeiro a apostar nisso e está longe de ser o último. Mas colocar IA de graça na mão de meio milhão de negócios pequenos, de uma vez, é o tipo de movimento que aumenta a régua de comparação para o setor inteiro — inclusive para quem nem usa o iFood.

Enquanto isso, o ChatGPT virou uma máquina bilionária de fazer anúncios  — e a Amazon está sendo acusada de inflar o próprio leilão.


A FTC e 22 estados americanos processaram a Amazon, acusando a empresa de manipular os leilões de publicidade para aumentar o valor pago pelos anunciantes desde 2019.

Segundo a ação, a prática pode ter custado mais de US$ 20 bilhões a 1,2 milhão de anunciantes. A Amazon nega e diz que o processo parte de um mal-entendido sobre como funcionam seus leilões.

Para quem trabalha com tráfego, o caso é especialmente interessante porque a Amazon permite anunciar para pessoas já dispostas a comprar, ou seja, em um dos momentos mais valiosos para influenciar a decisão de compra.

Lembrando que a Amazon já começou a escolher quem pode fazer compras por lá. Quem tentou comprar na Amazon pelo Muse, agente de IA da Meta — dona do Facebook, Instagram e WhatsApp — recebeu um aviso: agente de IA não autorizado viola as regras do site.

No dia seguinte, a Shopify, plataforma que hospeda lojas virtuais de marcas de todos os tamanhos, anunciou o contrário: o Muse pode finalizar compras em todas as lojas dela com o Shop Pay, checkout de um toque da empresa.

O Muse foi lançado em 8 de setembro e funciona assim: você pede um resultado, como encontrar o seguro mais barato, e ele executa as etapas no navegador. Tem plano grátis e versões de US$ 20 e US$ 100 por mês e, por enquanto, só funciona nos Estados Unidos.

Mas por que a Amazon fechou essa porta? Oficialmente, porque a Meta não pediu permissão, o robô navega sem se identificar e pode acessar informações da conta do cliente. A Meta afirma que o Muse não vê senhas nem dados de pagamento.

Só que existe um motivo com um cifrãozinho no meio disso. A Amazon faturou mais de US$ 68 bilhões com anúncios no ano passado. Se um agente passa a pesquisar, comparar e escolher o produto antes de o consumidor navegar pela loja, parte dessa disputa por atenção pode acontecer fora do ambiente que a Amazon controla.

E veja que ironia: a própria Amazon possui um agente chamado Buy for Me, criado para comprar produtos em sites de outras lojas. Enquanto a Amazon optou por bloquear o agente, a Shopify escolheu outro caminho. A empresa quer continuar presente na transação mesmo que a compra inicie em outro lugar. O mercado gostou da aposta e as ações da companhia subiram 7,3% no dia do anúncio.

Duas empresas gigantes receberam o mesmo visitante e enxergaram coisas bem diferentes. Para entender por que isso interessa tanto, basta olhar para uma compra comum hoje.

A pessoa pesquisa, abre marketplace, compara preço, lê avaliações, recebe o mesmo anúncio mais umas cinco vezes e, em algum momento, compra. Um agente pode encurtar boa parte desse caminho.

Você pede o seguinte: encontre um tênis para corrida até determinado valor, considere meu tamanho, compare avaliações, veja qual chega antes de sexta-feira e me mostre as melhores opções.

A IA pesquisa, filtra, compara e pode chegar com a compra praticamente pronta para aprovação. A consequência para quem vende vem “a galope”.

Uma pessoa pode entrar no site, baixar o app, clicar em várias páginas, assistir a um vídeo, ler avaliações e até mandar uma mensagem antes de decidir.

O agente de IA provavelmente terá bem menos paciência para caça ao tesouro e vai procurar respostas mais objetivas: quanto isso custa, quando chega, como funciona, quais são as condições e o que diferencia aquela oferta das outras.

E aí nasce uma nova disputa: convencer a IA a colocar sua oferta entre as opções antes mesmo de o cliente chegar à sua página.

Durante anos, o marketing aprendeu a disputar atenção em buscadores, feeds infinitos, anúncios e marketplace. Agora começa a disputar também a preferência dos sistemas que podem ajudar o consumidor a escolher.

O Muse ainda não chegou ao Brasil, mas está mais perto do que imaginamos.

Se uma IA precisasse entender hoje o que você vende, quanto custa, para quem serve e por que deveria recomendar sua oferta, ela conseguiria?

Duas gigantes da tecnologia, mas o mesmo visitante e decisões completamente opostas. Parece briga de bilionário — e também é.

Mas, quando uma IA faz a compra...

Quem fica com o cliente? 🤔

O ChatGPT já tem anúncios

A OpenAI anunciou que o ChatGPT Ads atingiu US$1 bilhão em receita anualizada menos de 200 dias depois do lançamento. A plataforma já reúne dezenas de milhares de anunciantes, chegou ao Brasil em fase piloto no início de agosto e agora expande o acesso direto pelo Ads Manager para Índia, Europa, Oriente Médio e Norte da África.

O detalhe que importa: receita anualizada não significa caixa já recebido. Significa que, no ritmo atual, a operação de anúncios roda numa velocidade equivalente a esse faturamento em doze meses — ainda assim, atingir esse patamar em menos de sete meses é um recorde e tanto. E onde tem 1 bilhão de usuários ativos por semana descrevendo problema, desejo e critério de compra numa conversa, o mercado publicitário não demora a montar barraca.

Mundo dos negócios

Até uma gigante do petróleo quer um pedaço dos data centers de IA. A SLB, maior empresa de serviços para petróleo e gás do mundo, fechou a compra da Kelvion, fabricante alemã de sistemas de refrigeração, por US$ 4,1 bilhões — a maior aposta da companhia fora do próprio setor até agora. A conexão com IA está no calor.

Quanto mais poderosos ficam os servidores usados para treinar e operar esses modelos, mais energia eles consomem e mais calor geram — e maior fica a necessidade de sistemas capazes de refrigerar toda essa estrutura. Segundo a SLB, o negócio combinado deve gerar mais de US$ 2 bilhões em receita de data center só em 2026, com meta de chegar a US$ 5 bilhões até 2028.

Sucesso de verdade é durar

Caso você tenha caído de paraquedas aqui, vale o disclaimer de que muita gente tá na Creator Economy desde que tudo era mato, e sequer o mercado todo conhecia esse termo.

Aliás, muita gente não fazia ideia do que vinha pela frente, mas tava lá desbravando o matagal da internet. Vimos as blogueiras se profissionalizarem, creators virarem CNPJs e a publicidade digital virar uma operação de milhões.

Agora, vemos a IA reescrever tudo de novo, diante dos nossos olhos - sempre atentos.

Busque o equilíbrio, mesmo quando ele não existe. Correção de pesos sobre a situação colocada. O tempo é o melhor juiz.

História não se compra.

Pra cima, família!

Para me seguir no Instagram: clique aqui.

Leonardo Coletti

Leonardo Coletti

Jornalista, DJ e Creator.
Brazil