Depois de dias intensos.
Voltamos à programação normal.
Quer dizer, o que é que tá normal em 2026?
A gente cobriu os principais temas da trilha de Creator Economy até aqui e, como já era de se esperar, a IA dominou os holofotes. Mas quem segue o blog não tá assustado com isso, certo? CERTO???
Grandes gurus do nosso mercado apontaram pra autenticidade como o grande diferencial dos creators humanos daqui pra frente.
E tá todo mundo preocupado com a IA “roubar” o seu emprego, quando os desdobramentos maiores e mais catastróficos estão vindo por aí.
Vamos falar um pouco sobre isso, então bora.

A era da "Slopaganda"
The Guardian investiga como IA tem sido usada para propaganda política
Em 19 de fevereiro do ano passado, a Casa Branca publicou - em sua conta oficial - uma imagem gerada por inteligência artificial do presidente Donald Trump com uma coroa na cabeça, parodiando uma capa da revista Times, e com a legenda "vida longa ao rei".
O post saiu no X, mas outros conteúdos na mesma linha foram publicados na Truth Social (Twitter inventado pelo Trump por ter sido banido do Twitter).
Segundo Mike Jhonson, o republicano que preside a Câmara dos Representantes, “o presidente usa as redes sociais para defender um ponto de vista.
Pode-se argumentar que ele é provavelmente a pessoa mais eficaz que já usou as redes sociais para isso. Ele está usando a sátira para defender um ponto de vista”. Infelizmente, errado não está. A tática vem dando certo.
Especialistas cunharam o termo "Slopaganda" pra descrever a prática. Numa tradução bem livre, porque qualquer tentativa de adaptar um termo assim não vai ser fiel à original, seria algo do tipo propaganda lixosa. Esse recurso se soma ao "Shitposting", os conteúdos propositalmente ofensivos criados pra provocar reação nas pessoas. Você fazer isso de um fake da sua casa já é uma vergonha sem tamanho, mas usar um canal oficial de governo é um horror tremendo.
Acontece que foi exatamente assim que Trump foi eleito: instigando a raiva e reação das pessoas insatisfeitas com a economia e seus empregos, e trazendo pro bonde todo o preconceito e ideias ultraconservadoras. Se o shitposting foi atribuído à extrema-direita, o presidente assume essa carapuça e inclui ela em seu segundo mandato, aponta o texto de Steve Rose para o The Guardian.
Steve analisou 10 imagens geradas por IA publicadas por canais oficiais da Casa Branca nas redes, como a de uma imigrante latina sendo deportada e chorando. De quebra, ele usou o estilo do Studio Ghibli (que produziu filmes como A Viagem de Chihiro), ideia totalmente rejeitada por seu criador e ganhador do Oscar, Hayao Miyazaki - o artista é conhecido justamente pela animação desenhada à mão.
Ainda há imagens de um Trump maromba com duas águias e a bandeira dos Estados Unidos ao fundo (ah e segurando um sabre de luz do Star Wars ???); políticos democratas com sombreiros comendo comida mexicana; um pinguim segurando uma bandeira dos EUA e caminhando ao lado de Trump na Groenlândia; e até o Trump vestido como Papa. Isso é muito surreal.
Até aí, todas essas imagens são escancaradamente falsas. Ela tem um propósito de propaganda, mas não confundem a realidade. Já no caso da manifestante Nekima Levy Armstrong é diferente.
Ela é uma advogada e ativista dos direitos civis que protestava contra a política anti-imigração e as forças da ICE, num culto religioso, quando foi presa com três camadas de correntes em seu corpo - nos pulsos, na cintura e nos pés.
Em seguida à prisão, a Casa Branca alterou a imagem real pra mostrá-la chorando, parecendo em desespero. A palavra "PRESA" estava estampada na foto, juntamente com uma descrição enganosa de Levy Armstrong como uma "agitadora de extrema esquerda" que estava "orquestrando tumultos em igrejas em Minnesota".
Esse caso vai de encontro ao do Grok, que abordamos algumas vezes aqui no blog esse ano. Assim como a IA do X removia roupas de mulheres e crianças, sem o consentimento delas, a Casa Branca usou IA pra humilhar uma mulher. Kaelan Dorr, vice-diretor de comunicações da sede do governo, classificou a alteração da imagem como apenas um meme.

Esse ano tem eleição no Brasil
Ainda é difícil prever de quais formas, ainda desconhecidas, a IA pode ser usada. Mas a alteração de imagens, os deepfakes, já são uma certeza.
A entrada da IA na política se difere da produção de conteúdos pras redes sociais no sentido de que, na Creator Economy, os creators podem (e devem!) apostar na própria autenticidade como diferencial. Em volume, é impossível competir com uma ferramenta que pode produzir, em uma noite do seu sono, o equivalente a um mês dos seus conteúdos. Por isso, a gente aposta que os usuários vão se cansar cada vez mais do conteúdo gerado por IA, buscando mais os creators humanos.
Mas e na política? Porque uma coisa é desligar o seu celular e dar uma volta, ou trocar a rolagem do feed por um vídeo de um creator maneiro no YouTube. Mas e quando um deepfake atinge um eleitorado e propaga uma fake news como se fosse real?
“Funcionários da Casa Branca disseram que usam inteligência artificial porque é a maneira mais rápida de divulgar conteúdo. Não é a maneira mais rápida de dizer algo verdadeiro; é a maneira mais rápida de disseminar sua propaganda", afirma Robert Topinka, professor de mídia digital e retórica na Birkbeck, Universidade de Londres, em entrevista ao texto do Guardian.
Os conteúdos de propaganda política gerados por IA já chegaram até na guerra, como aponta o portal g1:
O Irã provocou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta quinta-feira (12) com um vídeo produzido com inteligência artificial que traz referências ao filme "Divertidamente" e ao caso Epstein.
Outra produção como essa divulgada nos últimos dias por Teerã usa o universo do Lego para provocar os EUA. O governo Trump também tem compartilhado vídeos nas redes sociais em meio ao conflito para tripudiar sobre o Irã.
Pode parecer que a gente tá antecipando uma questão que só vai surgir mais pra frente, até porque os conteúdos gerados por IA ainda não vão dominar todo o debate eleitoral. Mas para e pensa o quanto as tecnologias e os conteúdos se transformaram de cinco anos pra cá. As mudanças estão vindo muito rapidamente. Se antecipar, nesse caso, é quase que já estar atrasado pro debate.
O que a gente identificou é que a era da pós-verdade, que até pouco tempo atrás era usada pra descrever essa época em que a gente não sabe mais o que é verdade ou fake news, em termos de notícias, agora subiu um degrau. Muito em breve, a gente não vai ter a menor ideia se um conteúdo, que parece perfeitamente real, é verdadeiro ou fake.
Um recurso possível que ajudaria muito seria as plataformas sinalizarem, de alguma forma explícita, que aquele conteúdo foi gerado por inteligência artificial - até porque tem muito meme de IA que não tem o intuito de atacar ninguém, apenas entreter. Mas isso é só um remédio pontual frente a uma pandemia que se espalhou pelo mundo inteiro.
IA virou mesmo coisa de pobre?
O creator Pietro Reis levantou essa bola, debatendo se a IA democratiza realmente o acesso a produção de conteúdo ou, se na verdade, só espalha um conteúdo que nada tem de artístico. E também falou sobre posicionamento de marca.
Ele cita várias marcas de grife, que tentaram usar IA em algumas campanhas e foram massacradas, ou outras, como a Porsche, que investiram em artistas e foram muito elogiadas por isso. Do outro lado, a loja Havan usou IA no design de almofadas, por exemplo. E assim vai se abrindo um abismo ainda maior entre o consumo de um público e do outro.
"A elite cultural vai rejeitar a estética de IA não por ética, mas por capital simbólico. Poder dizer "isso é feito por um artista" terá o mesmo peso de "isso é artesanal", "isso é orgânico", "isso é autoral". Já o consumo de massa será inundado por simulacros - não porque o pobre prefere isso, mas porque é isso que lhe será oferecido", escreveu João Pedro Feio em seu Instagram, justamente comentando se IA é coisa de pobre.
O Dr. em ciências Atila Iamarino contou, no seu canal, sobre os comerciais de fim de ano da Coca-Cola que usaram inteligência artificial. A informação do The Wall Street Journal é de que apenas cinco especialistas em IA foram necessários para produzir mais de 70 mil videoclipes, até chegarem nas peças finais.
"Enquanto a IA for uma tecnologia ruim, vai continuar sendo empurrada em quem não pode escolher", afirma Atila.
A Creator Economy tá sendo um verdadeiro campo de batalha sobre inteligência artificial, mas a gente já deu a letra para as marcas e creators, e o SXSW pregou a mesma coisa: a autenticidade humana não só é insubstituível, como a principal arma contra os conteúdos de IA.
Agora, como a gente se protege na política, aí já é outro papo. Quem sabe a gente não vence logo esse medo paralisante da IA, pra que o nosso mercado sirva o seu propósito: criar inovações que façam o mundo caminhar pra frente, não pra trás.
"Eu não tenho a preocupação da inteligência artificial substituir o cérebro humano porque ela nunca vai fazer isso. O cérebro não funciona em lógica digital, mas analógica. Como o nosso cérebro é um camaleão, o meu medo é de reduzirmos a capacidade do pensamento crítico, a inteligência e a criatividade, se acomodando ao mundo digital que nos cerca."
A fala é do neurocientista Miguel Nicolelis e, mais uma vez, vai de encontro com o que a gente já ouviu: nenhuma máquina vai substituir a criatividade humana.
Mas qual vai ser o saldo do nosso cérebro, depois de anos e anos rolando feeds infinitos? Tem gente que mal consegue esperar o intervalo de 1 minuto entre um exercício e outro na academia sem pegar o celular. É quase a distopia do filme Wall-E, só que a gente ainda pratica alguma atividade.
Por isso, leia seu livrinho, não deixe de passear na rua e, se for ficar trancado em casa o fds inteiro - sim a gente já podia ser muito caseiro bem antes do celular - prefira atividades manuais a rolar o feed por horas.
Combine seu tempo médio de tela e cumpra o combinado consigo mesmo. Não custa tentar.
Bom gosto é o maior diferencial.
Você está preparado(a)?
(Texto inspirado na News #48, para mergulhar nos assuntos, corre pro @instayoupix e receba, em primeira mão, o olhar do time YPX :)