Vem Aí 2026
A gente vive um paradoxo: enquanto uns constroem futuro, com ética e profissionalismo, outros lucram com oportunismo e descaso.
Enquanto isso, o mercado ainda aplaude.
Afinal em que mundo vivemos?
'Me sinto suja', diz brasileira vítima de foto editada de biquíni pelo Grok, IA de Musk
Ferramenta do X tem sido usada para criar imagens de nudez de mulheres e crianças
"Eu fiquei em choque quando vi. É um sentimento horrível. Eu me senti suja, sabe?", disse a mulher (que preferiu não se identificar) ao ser informada pelo portal g1 que uma foto sua de biquíni estava na rede social X. Ela conta que estava de calça na foto original publicada no story do seu Instagram.
Não dá nem pra falar que essa história ‘reacende’ o debate sobre regulamentação das redes sociais e da IA porque, na real, esse problema tá longe de ser resolvido.
Enquanto a França já havia denunciado o Grok por manipulação de informações, outros países como Reino Unido, Índia e Malásia pretendem investigar a empresa de Elon Musk, por esse tipo de comportamento.
A Catharina Doria, que é expert em ética de Inteligência Artificial, falou sobre a necessidade de culparmos a pessoa que usa a ferramenta dessa forma. Ela também explica que a responsabilidade é de Elon Musk, dono do X, e dos “tech bros” que criaram o Grok e não desenvolveram nenhum tipo de bloqueio ou filtro que evite esse tipo de uso da plataforma.
O X se pronunciou dizendo que "toma medidas contra conteúdos ilegais na plataforma, removendo-o, suspendendo permanentemente contas e trabalhando com governos locais e autoridades policiais conforme necessário", mas a gente vê que, na prática, isso não adiantou muita coisa. Na verdade, quase nada.
Neste exato momento, qualquer usuário pode testar o Grok pra essa finalidade. Então, qualquer um também pode continuar usando a ferramenta para cometer esse tipo de violência virtual. Enquanto isso, a xAI, empresa que é dona do Grok, anunciou neste início de ano que arrecadou US$ 20 bilhões (R$ 107,6 bilhões) em sua mais recente rodada de financiamento.
Por isso, a importância de conversarmos e debatermos sobre regulamentação das redes sociais e o uso da Inteligência Artificial no geral. O tema foi bastante politizado nos últimos anos - principalmente por quem quer continuar com liberdade irrestrita pra destilar preconceito e ódio, mas conversar é saudável, principalmente porque vivemos em uma democracia, em um país livre, e esse é o único caminho para jogar luz nas informações e proteger a identidade das pessoas.
Os deep fakes são assunto na internet há pelo menos uma década, mas o lance é que esses vídeos modificados tão ficando cada vez mais próximos da realidade, o que bagunça cada vez mais o nosso filtro do que é ou não real. E, em ano de eleição, isso promete ser uma verdadeira "bomba" atrás da outra.
Nas eleições municipais de 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu o uso de conteúdos em áudio, imagem ou vídeo gerados por IA para que se pareçam reais por meio da Resolução 23.732. O descumprimento das regras pode levar à cassação do registro ou até do mandato do candidato envolvido, caso eleito. A medida é importantíssima, mas a fiscalização é extremamente difícil.
Durante o período da pré-campanha até o fim das últimas eleições, de 2024, o Digital Forensic Research Lab (DFRLab), do think tank Atlantic Council, mapeou os impactos da IA no pleito e identificou:
Deep fakes pornográficos (principalmente colocando candidatas mulheres nuas ou em poses e posições sensuais); manipulações que associavam falsamente candidatos a crimes como corrupção ou suborno; imitações de jornalistas e reportagens de televisão falsas contra candidatos; apropriação indevida da imagem de políticos conhecidos, como o presidente Lula e Bolsonaro, em falsas demonstrações de apoio ou ataque; além dos deep fakes satíricos que, apesar da intenção humorística, confundem o eleitorado.
E o debate vai muito além de quem usa pra algo do bem ou mal, mas e no caso de quem faz humor? E indo bem além disso, pra testar mais todos os limites ainda: e quando a gente pede pra IA fazer uma foto nossa com a avó que já faleceu? Não é difícil imaginar um candidato fazendo algo do tipo ou pior ainda.
Ainda existe verdade?
Tirando a isca do questionamento, é claro que existe verdade. E isso não é uma novidade pra humanidade. Talvez você não lembre, ou não tinha idade na época, mas os millenials cansaram de receber emails spam com fake news.
Muita coisa já era possível de ser chocada em jornais, Google, mas é bem provável que muitos boatos tenham passado batido e dos limites, como por exemplo, o de que a cantora Shakira teria removido uma costela pra conseguir o rebolado mais famoso do mundo.
Alguns especialistas falam em “era da pós-verdade”, mas a nossa sociedade já experimentou fenômenos parecidos, que certamente estão dentro dessa ideia: as conspirações, que se colocam como uma teoria alternativa à alguma coisa (por exemplo de que o homem nunca foi à Lua, ou de que a Terra é plana); ou até na tal “ilusão da verdade”, por uma ideia compartilhada no imaginário coletivo, que não necessariamente faz mal, mas tampouco é verdade. Você lembra de quando a Daiane dos Santos ganhou sua primeira medalha em Olimpíadas?
Se veio alguma lembrança na sua mente, saiba que você tomou um golpe do seu imaginário.
Com as conquistas do time brasileiro nas Olimpíadas de Paris-24, além do destaque absoluto de Rebecca Andrade, talvez essa fake news já tenha sido desmentida, mas muita gente acreditou nisso até pouco tempo atrás.
Isso aconteceu porque os campeonatos de ginástica, que não eram durante as Olimpíadas - eram transmitidos em TV aberta, nossa principal mídia tradicional de consumo.
Em 2003, Daiane foi a primeira medalhista de ouro na história da ginástica brasileira, o que pode ter deixado a impressão, no imaginário coletivo, de que ela tinha atingido o feito em uma Olimpíada.
Mas então, vivemos ou não na tal era da pós-verdade?
“Eu responderia “não” porque mentiras têm sido disseminadas deliberadamente há séculos. E diria “sim” porque os meios de comunicação mudaram, permitindo que tanto informações verdadeiras quanto falsas se espalhem mais rápida e amplamente do que nunca.”
Explica o historiador Peter Burke, em uma entrevista sua ao Jornal da Unesp.
O único antídoto para combater notícias falsas, conspirações e a desinformação não é algo descolado nem hypado, mas é simples e universalmente acessível: a checagem dos fatos. Seja por uma agência oficial, como a Lupa, Aos Fatos, Pública, nos jornais, numa fonte confiável ou até na Enciclopédia Barsa - como faziam os Maias e os Astecas.
Não é à toa que recheamos os textos com esses hiperlinks. Clicando neles, você confirma de onde saiu essa informação. E, lembrando, que não importa o grau de estudo ou atenção, todo mundo pode cair numa fake news.
O lance é o que a gente faz quando se dá conta disso.
O que fazer se você for uma vítima
O portal g1 publicou um texto listando quais medidas podem ser tomadas para preservar a sua integridade.
Preserve as provas: não apague nada inicialmente. Tire prints do perfil do responsável, da imagem gerada, dos comentários e, principalmente, da URL (link) direta da postagem.
Registre a autenticidade do material: se possível, use ferramentas de registro de prova digital com validade jurídica, como a ata notarial em cartório ou plataformas online, como o e-Notariado. Esses registros ajudam a evitar que as provas sejam contestadas.
Denuncie o conteúdo na plataforma: use os mecanismos internos da rede social para denunciar a violação. O Marco Civil da Internet obriga a remoção rápida de conteúdo íntimo não consensual após notificação da vítima.
Registre um boletim de ocorrência: procure uma Delegacia de Crimes Cibernéticos ou faça o registro pela internet, reunindo todas as provas coletadas.
Chegamos ao fim?
Calma que, dessa vez, a gente não tá dando uma de Márcia Sensitiva: a Speaker da ONU sobre tecnologia e futuro, Sinéad Bovell, disse que a IA pode ser justamente a pedra no sapato da lógica das redes sociais.
Isso porque, independente de creators com milhões de seguidores, ou pessoas comuns que gostam de postar um prato de comida, um passeio com amigos ou anúncio de vaga de emprego, nós postamos porque queremos que alguém veja aquele conteúdo. Esperamos isso, nem que seja uma única visualização.
E se não soubermos se quem está do outro lado é real? A ideia de rolar um feed que traz 100% dos conteúdos gerados por IA e pessoas virtuais fazendo lives parece distante - e essa sim apocalíptica, mas será que estamos tão longe assim desse cenário?
Pensando que a gente já tá saturado de ver e postar, que todo mundo tenta mil artimanhas pra fazer um detox de celular, será que outros tipos de redes sociais podem surgir, pra além das clássicas que a gente usa desde que os smartphones surgiram e o 3G ficou mais acessível?
O recado de Sinéad é que, mesmo que as próprias plataformas estejam desenvolvendo novos recursos e ferramentas, elas próprias serão responsáveis por seus declínios, a menos que pensem em formatos e dinâmicas diferentes.
De um lado, creators que estão pensando em desenvolvimento de carreira, impacto de marca e entendem que influência é consequência.
Do outro, gente explorando brechas do sistema, divulgando bets e tratando a audiência como algo descartável.
Calma, 2026 tá só começando.
Você está preparado?
(Texto inspirado na News #39 da YOUPIX. Para vcoê se aprofundar, corre pro @instayoupix e receba, em primeira mão, o olhar do time YPX :)