Nem tudo que parece

De certa forma, todo mundo trabalha um pouco para as redes digitais.

Quem só rola o feed deitado no sofá (e pode estar desempregado) vai rir dessa frase, mas talvez sem saber que a própria atenção é um grande ativo de negócio.

Views não são tudo, mas importam sim.

Na real é a principal moeda.

Do contrário, qual o sentido de produzir um conteúdo que ninguém vai ver?

Hoje, resgatamos o papo de como tem muita gente trabalhando para as plataformas, mais do que é capaz de enxergar.

Imagem por: Karolina Grabowska

Estamos todos atuando

Antropóloga destrincha as novas formas de trabalho, formais e informais, que surgiram com o desenvolvimento das mídias digitais

"Eu já tenho que trabalhar o que eu sempre tive que trabalhar, que é 12 horas, e agora tenho que investir na minha rede social.”


A frase é da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que apareceu na última YPX News falando sobre os “CEOs de MEI” e que estuda a relação entre as redes sociais e o trabalho. Sua pesquisa não se limita ao Brasil e, em outros países, como nas Filipinas, ela também nota comportamentos sociais parecidos com os nossos.

A frase é da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que apareceu no último textão, falando sobre os “CEOs de MEI” e que estuda a relação entre as redes sociais e o trabalho. Sua pesquisa não se limita ao Brasil e, em outros países, como nas Filipinas, ela também nota comportamentos sociais parecidos com os nossos.

Ela explica como essa lógica afeta, desde pequenos empreendedores, até profissionais como psicólogos e jornalistas, gerando exaustão, isolamento e a sensação de que é preciso estar sempre se promovendo para conseguir trabalhar.

“Eu não vou ser alguém no mercado de trabalho se eu não vender o meu produto”, diz a pesquisadora à BBC News Brasil.


Morde e assopra

Um bom marco pra entender o movimento dos profissionais que também levaram seus trabalhos para as redes é a pandemia: se você fazia algum tipo de comida, encontrou uma oportunidade de entregar direto na casa do cliente. Se tava no mercado de vestuário, era só manter a produção e adicionar o delivery. O que parecia uma limitação pra muitos, se tornou oportunidade de mercado.

E aí, quem ainda não tinha entrado nesse movimento, de repente se viu na obrigação de criar uma página pra sua marca, empresa ou serviço, ainda que não faça muito sentido. Hoje, um psicólogo ou advogado, por exemplo, precisa de uma conta verificada e pelo menos 10k seguidores, para validar o seu trabalho.

Acontece que influência é consequência, não o ponto de partida. Ser influente é um mérito conquistado por meio de autoridade e credibilidade construídas ao longo do tempo.

Para conquistar essa posição, é necessário fornecer conteúdo autêntico e consistente, demonstrando comprometimento com uma audiência específica. Lembramos de um artigo, publicado lá em 2023 - que segue bem atual.

Pra Rosana, a antropóloga que tá estudando esse fenômeno, essa necessidade das redes validarem o trabalho do profissional, que já existia independente delas, gera uma pressão e um senso de inevitabilidade: “Eu não vou ser alguém no mercado de trabalho se não saber como vender o meu produto”.

Imagem por: 2 Bro’s Media

Funcionário do mês

Se você passa 4, ou 9 horas por dia em frente às telas, saiba que está trabalhando para as plataformas. Isso porque as métricas como número de seguidores, views e a retenção do creator dependem da atenção que você dá.

A cada vídeo que assiste ou passa reto, cada conta que segue, é uma contribuição para Creator Economy, em que o grande ativo é a atenção do usuário. Logo, não é exagero nenhum dizer que estamos todos trabalhando para as plataformas, mas a maioria não recebe nada em troca: desde o usuário, que consome; passando pelos profissionais que precisam estar nas redes; até os creators, que podem ganhar por publicidade, mas nem sempre por uma monetização direta.

O terreno é você

Quem cria conteúdo na internet vive uma outra versão dessa “ilusão de posse”.

Criar dependendo exclusivamente da entrega das plataformas é o equivalente digital a construir uma casa em um terreno alugado.

Por mais estável e lucrativo que o cenário pareça hoje, o inquilino nunca manda na sua propriedade.

Uma mudança repentina nas diretrizes do algoritmo, a alteração em uma política de monetização ou as idas e vindas do algoritmo que mexem no alcance, podem mandar pro ralo anos de trabalho - da noite pro dia.

Em uma YPX News do mês passado, falamos sobre como o movimento de resgate ao analógico pode ser uma boa pra muitos creators (de todos os tamanhos) cavarem formas melhores de fazer renda com a criação de conteúdo. No fim das contas, a gente acabou caindo na pegadinha de achar que tá empreendendo pra si mesmo, quando tá todo mundo trabalhando pra alimentar o algoritmo. A gente entrega nosso tempo e atenção de graça, pra manter essa engrenagem girando.

A ideia não é surtar e sumir das redes - mas fique à vontade, tá? Talvez o lance seja parar de tratar o feed como o destino final do seu trabalho e passar a usá-lo como um meio apenas. O verdadeiro ativo de um creator que nasceu no digital, ou de um profissional que migrou pra lá não é o número de seguidores (que pode facilmente ser comprado), mas a comunidade que você consegue atingir na vida real. Em um textão como esse, em produtos próprios e encontros ao vivo, olho no olho.

Para ressoar, uma frase que ainda tá fresca na nossa mente: “sucesso é durar”, influência é fruto de um bom trabalho. Vale gastar menos energia alimentando a máquina e investir mais em estratégia, pra construir o que seja, de fato, seu de verdade.

"Passou 28 anos no celular."


Para o especialista digital Ronaldo Lemos, essa vai ser a frase na lápide de muita gente que ainda é jovem.

Em entrevista à BBC, ele explica que o Brasil registra o segundo maior tempo de tela do mundo, com pessoas passando mais de 9 horas por dia conectadas. Isso é muito doido se a gente pensar na máxima "8h trabalho/8h descanso/8h lazer", estabelecida ainda no século XIX em um movimento liderado por trabalhadores. Como fica essa divisão na vida de uma pessoa viciada em telas hoje em dia?

"Você tá sendo anestesiado", explica Ronaldo. "O seu corpo tá recebendo uma anestesia que chega por meio da sua mente e do coração. Se não tivesse nada acontecendo na tela, seria impossível passar todo esse tempo olhando pra ela".

A gente já falou bastante sobre como funciona o esquema de recompensa no feed, você vê um monte de bobagem, passa reto em vários conteúdos, vai treinando o algoritmo e, de repente, vem alguma coisa interessante. Logo após, 1 segundo depois, o ciclo recomeça e mantém nossa atenção capturada.

Aqui a gente não acredita no fim das redes sociais, ou na nossa completa falta de autonomia pra lidar com o vício em telas. Mas todo mundo concorda que tá fazendo mal, né?

Se desinstalar algum app seja a única solução pra você, vá em frente. Mas sempre é possível trocar uns minutinhos de rede social por uma caminhada, uma refeição silenciosa, uma leitura, ou simplesmente... nada.

Muita gente reclama de burnout, cansaço, muita informação de uma vez, jobs que pagam mal ou que demoram meses pra mandar o PIX… tudo isso é válido, mas será que essa é a vida mais sofrida do trabalhador brasileiro?

A gente só expõe o que é conveniente pra nós. Nem sempre isso é ruim, tá? Todo mundo merece privacidade, mas que tal parar de se comparar com a blogueira perfeita, que você não sabe como vive na vida real.

Vimos “blogueira” virar profissão, creator virar empresa, publi virar operação de milhões e agora a IA está reescrevendo tudo de novo.

Todo mundo virou influencer?

(Texto inspirado na News #77 da YOUPIX. Para aprofundar, corre pro @instayoupix e receba em primeira mão, o olhar do todo o time YPX :)