Olha só quem voltou
Se você é da época de postar foto de comida no Instagram, com aqueles filtros tenebrosos, deve se lembrar de uma época que o feed simplesmente terminava.
Entre assuntos sérios, fofocas e brincadeiras. Há 5 anos, a gente começava 2020 achando que seria “o nosso ano” (cada um achando pra si, né) e olha no que deu.
Tirando toda a parte ruim, que foi a maior parte, zero saudades, as transformações no nosso mercado foram gigantescas, verdadeiros marcos que mudaram a nossa forma de produzir conteúdo e fazer publicidade digital.
Se você olhar bem, vai ver que algumas coisinhas já mudaram de lá pra cá. O que esperar da segunda metade dessa década?
Como as informações vão chegar até nós a partir de agora? Os deep fakes vão dominar as redes em tempos de eleição?
Ou a IA vai destruir tudo antes mesmo de chegarmos em outubro? Se for essa ideia, é melhor ela correr, porque o aquecimento global largou na frente.
Mas calma, ainda tem Copa do Mundo no meio disso tudo. Ai, que delícia! Bom pra esquecer os probleminhas do mundo um pouco, igual a gente faz no recesso.
Se bem que Copa de 2026 acontecerá em três países. Ao todo serão 16 cidades-sede: duas no Canadá, três no México e 11 nos Estados Unidos… que acabou de invadir a Venezuela. Ô céus, que desgraça viu. Esse ano começou daquele jeito.
Pra quem vive o recesso intensamente, o mundo inteiro para, você larga mão do celular por alguns dias e nada mais importa, além das tarefas simples do dia a dia, como pegar uma praia, cortar uma fruta ou deitar numa rede pela tarde inteira. Mas, à medida que os dias passam, bate aquele comichão: “qual notícia vai fazer meu ano começar pra valer?”
E ela aconteceu logo de cara, no dia 3 de janeiro. Diferente de outros anos, quando subcelebs e famosinhos se envolviam em alguma polêmica durante as festas de fim/começo de ano, dessa vez uma das figuras mais conhecidas do planeta não demorou pra frustrar os nossos desejos de paz pra esse ano.
Donald Trump ordenou uma invasão na Venezuela pra sequestrar o presidente Nicolás Maduro, que deixou pelo menos 40 mortos, segundo o The New York Times.
Desde que a polarização política acirrou no Brasil, há mais de uma década, qualquer opinião que você poste vai ser imediatamente encaixotada em uma caixa abstrata do espectro político, seja esquerda ou na direita.
Nisso, muita gente fala bobagem sem estudar direito, pra somar apoiadores de um lado ou outro. Ou pior, tem gente que não fala nada com nada, para evitar se comprometer com algum dos lados. Mas, como falamos bastante no ano passado sobre a crise de confiança no jornalismo, o conteúdo responsável vai ser cada vez mais procurado e engajado.
Por isso mesmo, a geopolítica tem um impacto enorme, seja pra quem surfa na onda das trends e lucra com engajamento, ou pra quem vai ter mais dificuldade pra comprar um ring light por conta de algum tarifaço da vida.
O creator Dylan Page, por exemplo, soma mais de 1.6 bilhões de curtidas em seus conteúdos, que giram em torno de notícias diárias. Ele não costuma dar a sua opinião, mas se mostrar chocado com notícias de guerras e conflitos que acontecem pelo mundo - como nesse caso, da invasão dos EUA à Venezuela.
Ano de Copa e eleição
2026 vai ser um ano muito importante no nosso mercado porque, além do maior evento esportivo do planeta, também teremos eleições presidenciais.
A invasão dos EUA impacta diretamente nos dois temas: enquanto o Mundial de seleções vai ser disputado no país de Trump, o líder deve influenciar nosso pleito, direta e indiretamente. Ainda que ele não se posicione sobre, o próprio sequestro de Maduro já serve como palanque para políticos que aprovam ou condenam a operação.
O esporte e a geopolítica sempre caminharam juntos e, dessa vez, não é diferente. Até por isso, a Creator Economy tá nesse bolo - mais do que nunca, o mercado estará aquecido para quem quer falar sobre o assunto. Segundo o estudo 'O Brasileiro e a Copa', encomendado pelo Resenha Digital Clube à Data-Makers: 70% dos brasileiros fãs de esportes já estão consumindo conteúdos sobre o Mundial que será disputado, entre junho e julho.
Um bom exemplo pra mostrar a interseção desses assuntos é a questão da Rússia, que foi banida das competições de clubes e seleções da FIFA, depois da invasão à Ucrânia.
Será que os EUA, um dos países que sediam essa Copa, também será excluído? Difícil, já que o presidente da entidade máxima do futebol, Gianni Infantino, deu um Prêmio de Paz para Trump há pouco mais de um mês.
No caso das eleições, o professor de história na Universidade de Georgetown, Erick Langer, disse à BBC News Brasil que aposta na influência de Trump no pleito, ainda que não necessariamente seja uma boa pra direita.
Tudo vai depender dos desdobramentos nos próximos meses, principalmente os que acontecerem mais próximos de outubro, que vão estar frescos na mente do eleitorado. De um jeito ou de outro, será uma época recheada de conteúdos políticos nas redes sociais.
Análise: geopolítica x Creator Economy BR
O impacto de um líder político poderoso ordenar uma invasão a um país soberano vai muito além da geopolítica tradicional.
É preciso se questionar que, além da bandeira da democracia, o que mais pode estar por trás desse ataque?
Geopolítica é como um iceberg: a gente enxerga a ponta, mas precisa de um olhar cada vez mais profundo para entender.
E, mesmo quando não há um conflito concreto - e ficamos apenas nos ataques verbais e blefes, como boa parte do Tarifaço se deu, o simples ruído político já é suficiente para gerar instabilidade econômica, pressionar o dólar e acionar um modo de cautela no mercado global.
No Brasil, isso chega rápido: as marcas seguram investimentos, repensam campanhas e passam a exigir mais assertividade em cada entrega (meio que não rola errar nesse contexto de instabilidade). Esse movimento faz com que creators tenham cada vez menos espaço para o processo de tentativa e erro, que é fundamental nesse processo - especialmente para creators pequenos, que não podem se dar ao luxo de recusar uma campanha, ou de sofrerem um cancelamento.
Ao mesmo tempo, um cenário internacional tenso politiza o ambiente digital mesmo para quem não produz conteúdo político - como falamos lá em cima, seja pra Copa do Mundo ou eleição, vai todo mundo falar sobre esses assuntos, ainda que não falem. Dizer “não vejo e não entendo nada” também é dizer alguma coisa sobre. Opinião, contexto social e leitura de mundo passam a ser interpretados como posicionamento, e isso aumenta tanto o risco de rejeição quanto ao medo das marcas, de se associarem a discursos considerados sensíveis.
Paradoxalmente, esse ambiente favorece creators com voz clara e comunidade fiel, mas principalmente os que se preocupam com a qualidade da informação que entregam para suas audiências. Enquanto perfis “em cima do muro”, neutros, correm o risco de perder relevância.
Muitas pessoas relataram uma certa ansiedade nas redes, ao longo desses dias, por ser difícil prever qual seria a próxima escalada do conflito, ou se outro tipo de violência poderia acontecer em algum outro lugar. Pensando nisso, creators podem tanto acalmar os ânimos com informações precisas e reflexões que estimulem o pensamento, mais que o medo, além da galera do entretenimento, que com bom humor podem servir como um respiro e alívio pra audiência, no meio do caos.
Nesse contexto, a Creator Economy brasileira não entra em colapso e passa, de novo, por um processo de amadurecimento.
Se as marcas se posicionam de forma mais conservadora, surge um espaço para marcas locais, se aliando a creators menores, em estratégias baseadas em vínculo real.
De certa forma, a lógica do nosso mercado se torna mais honesta: creators deixam de ser apenas vitrines de atenção, selecionados apenas por número de seguidores, e passam a funcionar como ativos estratégicos de comunicação, centrais na construção de marca.
Que vivemos em um tempo de instabilidade global, ninguém discute. Mas há quem diga que nunca houve um tempo de calmaria. De qualquer jeito, sobrevive quem é capaz de construir confiança suficiente para continuar sendo ouvido.
Longe de achar que entramos numa "era apocalíptica" ou coisa do tipo, porque participamos das transformações e nos adaptamos. Mas é inegável que aquela ideia de que a internet seria um lugar de conexão e aprendizado virou uma ilusão.
Talvez a gente precise estudar como usar as redes no geral, do mesmo jeito que a gente aprende a calcular o imposto de renda. Nada é tão óbvio quanto parece.
'Se tiver guerra, uma tragédia. Se não tiver, vergonha.'
Não leve o celular pro banheiro.
Use esse tempo pra ler.
Feliz Ano Novo!
(Texto inspirado na News #38 da YPX, para se aprofundar, corre pro @instayoupix e receba, em primeira mão, o olhar de todo time :)